SNS -Trabalhar nestas condições é indigno para todos!

Entrou nas urgências do hospital de Torres Vedras na quarta-feira, dia 15 de Março pelas 14 horas e já se passaram 5 dias sem que a situação temporária de urgência se altere. São condições a roçar a indignidade em que médicos e pacientes vivem naquelas instalações. 

Hospital de Torres Vedras deixa muito a desejar!

Serviço de urgência

No trabalho da autoria de Maria da Luz Brazão, Sofia Nóbrega, Gil Bebiano e Elisabete Carvalho sobre a Atividade dos Serviços de Urgência, chegam à seguinte conclusão:

O serviço de urgência é uma das áreas hospitalares com maior afluência, onde a procura e o grau de complexidade
são elevados e imprevisíveis, o acesso é irrestrito e as exigências são crescentes, assim como a necessidade de gestão de
recursos para evitar o colapso das instituições.

Por um lado, temos o acesso dos utentes, motivados pelas suas preocupações e exigências, movidos por crenças pessoais e sociais, com determinadas patologias e expetativas, procurando empatia e respostas por parte dos profissionais de saúde, que devem assegurar uma boa comunicação e prestação de informação e cuidados de qualidade, que contribuam para o grau de satisfação do doente, adesão ao tratamento, procura adequada de cuidados e confiança. Por outro lado, mas não oposto, temos os profissionais de saúde, que têm que ser capazes de se integrar num ambiente dinâmico, multitarefa, em constante mutação, com múltiplas
exigências e pressões, que devem ser trabalhadas em equipa, com capacidade de resolução de conflitos, mas que pode ser fonte de prazer se a relação entre os profissionais e a organização for harmoniosa e cada um tiver a oportunidade de ver supridas as suas necessidades e se sentir parte da estrutura organizacional. 

Várias intervenções a nível político têm sido feitas numa tentativa de diminuir o acesso indiscriminado e inapropriado ao serviço de urgência, mas é preciso ver mais além, considerando a importância dos custos indiretos para os utentes, as falhas do sistema e a importância de um bom acesso aos CSP.
Nenhuma intervenção será eficaz se a liderança e a gestão do sistema não for una e equilibrada. Um líder tem que ser capaz de motivar e inspirar as suas equipas, ser capaz de ouvir as suas preocupações e ambições, e implementar um ambiente de partilha e pertença, levando a um trabalho eficaz, redução do burnout (stress laboral crónico)  e prestação de cuidados de qualidade.

Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos médicos (janeiro de 2018)

Sem papas na língua, o anterior bastonário da Ordem dos médicos escreveu e tornou pública a sua opinião sobre a degradação do SNS, focando-se neste artigo na situação dos serviços de urgência hospitalares:

“A história clínica da confusão nas urgências hospitalares e a atitude incompreensível dos responsáveis políticos, têm como pano de fundo o inaceitável desinvestimento na Saúde, ampliando os elevados cortes “cegos” realizados nos últimos sete anos. E tem por base a desorganização subjacente a quem se preocupa apenas com números e não com as pessoas. Sempre com apoio num mito que se mantém, apenas mudou de nome. Antes era conhecido como sustentabilidade do SNS. Agora tem um termo mais adequado aos tempos modernos: neutralidade orçamental! As finanças justificam tudo, mesmo que seja em detrimento da qualidade e humanização que deveriam constituir a prioridade na defesa e no desenvolvimento do nosso SNS.

As denúncias públicas de situações irregulares que colocam em causa a segurança dos doentes e dos profissionais de saúde são conhecidas de todos aqueles que utilizam ou trabalham no serviço de urgência (SU). A gripe ainda não atingiu o pico, e a ruptura iminente de alguns SU já é inquietante. A agudização desta situação a que estamos a assistir tem por base múltiplos factores, que contam com a indiferença do ministro da Saúde e a cumplicidade do ministro das Finanças.

Ausência de autonomia e flexibilidade das administrações hospitalares para definirem e aplicarem planos de contingência; Informação útil no Portal do SNS; Deficiente planeamento e organização do trabalho; Escalas de serviço de urgência incompletas e sem o reforço obrigatório nos meses mais problemáticos; Carência de equipas médicas dedicadas e entrosadas.

Associação explosiva entre a contenção de custos, a redução drástica da composição das equipas de saúde e a imposição de sobreposição de tarefas; Falta de médicos e outros profissionais contribui, nalguns casos, para tempos de espera clinicamente inaceitáveis, particularmente nos doentes triados como urgentes ou muito urgentes; Persistência em continuar a contratar médicos tarefeiros através de empresas prestadoras de serviços em detrimento da abertura de concursos públicos para a contratação dos médicos necessários; Insistência na utilização do protocolo de triagem de prioridades de Manchester isolado, em detrimento da triagem clínica dos doentes urgentes.

Desinvestimento no papel crucial dos cuidados de saúde primários nos serviços de atendimento permanente a situações clínicas agudas não urgentes; Ausência de uma política centrada nas pessoas e na literacia em saúde, que contemple uma verdadeira reforma dos serviços de urgência/emergência integrada com as reformas hospitalar, cuidados continuados e cuidados de saúde primários; Condições de trabalho inadequadas ao exercício da profissão em muitos serviços de urgência e remunerações indecorosas dos médicos que assumem a elevada responsabilidade e risco de trabalhar em circunstâncias muitas vezes inaceitáveis.

Os responsáveis políticos preferem que os hospitais mantenham os seus méritos de gestão centrados na neutralidade orçamental, em vez de resolverem aquela que deveria ser a sua principal preocupação no serviço de urgência: prestar cuidados de saúde de qualidade em tempo útil.

Quantas desgraças serão necessárias para que os responsáveis políticos tomem medidas efetivas para a resolução de um problema que não é novo nem sequer é desconhecido dos principais decisores na área da saúde? Até quando se vai manter uma impiedosa política de saúde nesta área?”

A verdade por vezes doi!

Independentemente daquilo que é estudado e escrito por pessoas que se preocupam pela temática, a verdade é que pouco ou nada se vai modificando e a procura pela evolução desta problemática faz-se de forma muito lenta. Quem sofre com as consequências são sempre os mesmos: Todos nós!

Os serviços de urgência hospitalares constituem um acompanhamento intenso por parte de uma equipa médica, habilitada a dar resposta a várias situações ao mesmo tempo. Logo aqui, poderemos concluir que a sua missão não se torna em nada fácil e o esforço é simplesmente de outro mundo, quando olhamos a quantidade de recursos humanos e logísticos disponíveis nestes serviços. Diria mesmo, em tom de brincadeira, se me permitirem, de que o problema é da Netflix. O facto de nos mostrarem grandes séries(novelas) hospitalares, quase sempre com finais felizes, com condições logísticas e humanas irrepreensíveis, leva-nos a pensar que os nossos hospitais estarão ou deveriam estar munidos com o mesmo material cinematográfico. 

Infelizmente a sorte, nestes últimos tempos, não me tem batido à porta. Sou igual a todos vós. Uns já passaram por isto, outros irão passar em mais ou menos anos. Aviso-vos de que mesmo sabendo disto tudo, jamais estaremos preparados para o que quer que seja. 

Tenho um familiar, a minha mãe, num serviço de urgência do hospital de Torres Vedras e como podem calcular, não estou nada feliz com a situação. Mais uma vez reconheço o esforço de toda a equipa médica e de todos os seus colaboradores no cumprimento da difícil Missão que lhes é atribuída diariamente, num esforço contínuo de sucesso com os escassos recursos humanos e logísticos que gerem e lhes colocam à sua disposição. Diria mesmo, para quem não conhece este serviço de urgência do Hospital de Torres Vedras, para não sentirem qualquer tipo de curiosidade em o conhecerem ou terem lá algum familiar ou amigo. Acredito no bom profissionalismo das equipas médicas, mas deixem-me dizer-vos que é assustador aquilo a que se assiste neste nosso País pertencente à União europeia e considerado um país evoluído. Por mais uns Kms, poderíamos ser África e tudo isto era normal! Estamos longe dos níveis que ansiámos toda a vida. A saúde na Europa, por enquanto, ainda é uma preocupação do Estado, mas estamos, a meu ver, muito perto da quebra desta regra.

Quais são então as grandes queixas?

  1. Acredito que não há alguém que goste de ir passear a um hospital, pelo menos penso não haver, mas…
  2. Cada pessoa que dá entrada num hospital, tenha ela a idade que tiver, terá sempre um conjunto de pessoas, família e amigos, que estarão preocupados com o seu estado de saúde;
  3. A família, os que mais de perto sofrem com o estado de saúde do paciente, enchem-se de ansiedade e nervosismo na ânsia de informação que os possa acalmar ou reconfortar;
  4. As condições dignas ou indignas com que os pacientes são tratados começa a ser um problema grave quanto maior for o tempo de permanência nesse serviço de urgência. À medida que vamos conhecendo o meio, começamos a reparar nos pormenores e aqueles que nos saltam à vista, e mais marcantes, são sempre os mais negativos;
  5. As barreiras ou os filtros que fazem para obtermos qualquer tipo de informação é pura e simplesmente enfadonho e sem nível. Compreendo que estas terão que existir, porque se não houvessem, os médicos nada mais fariam do que estarem a falar com os familiares. No entanto, acredito que tenha de haver uma maior formação para quem está no primeiro nível da barreira. Geralmente são os chamados auxiliares que cumprem esta tarefa. Cansados e sem qualquer sensibilidade (porque com o tempo tudo isso se perde) lá vão respondendo de forma fria e a roçar a má educação às pessoas que procuram obter por qualquer meio informação sobre os seus familiares ou amigos;
  6. Os telefones disponíveis, colocados em papel na porta fechada que dá acesso ao serviço de urgência 2, informam os horários em que se pode ligar e solicitar informações. Nem sempre é fácil apanhar alguém disponível para o mesmo! Mesmo assim, a informação é sempre passível de ser modificada, “porque como entende, “quem está no poder da informação é o médico de serviço.”
  7. Nas portas destes serviços, sempre a referência ao RGPD que serve de camuflagem a toda a incompetência. Sem fotos ou gravações, ninguém pode falar sobre o verdadeiro estado de saúde da nossa saúde!
  8. Visitas não deveriam existir nestes locais de urgência, no entanto, sempre no entanto, pode-se pedir com meiguice, e a título excecional, uma ida à maca do paciente para verificarmos com os próprios olhos do evoluir da situação pode ser possível!
  9. Os doentes chegam em macas à sala de urgência, vindos por corredores a céu aberto, bafejados pela sorte da meteorologia. Faça-se sol, chuva ou frio, tudo passa porque são fortes! 
  10. Na sala, podemos comtemplar macas em cima uma das outras cheias de doentes. Felizmente não se veem muitas pessoas novas. A sua maioria são pessoas de bastante idade e como podem compreender, caso consigamos lá chegar, é isto que nos espera. Uns gritam, outros ressonam, as máquinas apitam, as luzes sempre acesas, as pessoas de um lado para o outro, os enfermeiros nas suas tarefas de acompanhamento, enfim, um local que deveria ser apenas temporário e de passagem para um local onde fossem dadas condições de maior dignidade a um doente;
  11. Estar numa maca por um dia é complicado. Por dois…complicadinho. Agora por cinco? Já passou a barreira da compreensão e da minha boa disposição;
  12. A situação em que se encontra um paciente numa qualquer sala de urgência ou observação é o estado de ” Não internado“.

Há sempre um moral da história.

Estamos em Portugal e infelizmente não estamos a viver bons momentos no que à saúde diz respeito. A falta de pessoal qualificado leva-nos a pensar de que não somos capazes de investir nesta gente atraindo-os para cumprirem a sua profissão no nosso País. O setor vive com muitas lacunas e não deixa espaço para se pensar e planear a médio e a longo prazo. A população Portuguesa está envelhecida e com maiores necessidades médicas. Os rendimentos são baixos e o SNS é uma prioridade para a grande maioria dos Portugueses. 

Tudo isto é uma constatação real, mas depois quem sente são aqueles que por cá passam. Como diz o ditado: “ Pimenta no “bumbum” dos outros é refresco!”

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