Acordei tarde demais...

Resumo

Existem coisas que jamais saem da cabeça, como resultado da nossa personalidade, educação, da nossa forma de viver e encarar o mundo.

Este é o mote para as palavras que quero deixar escritas para alguém, nem sei quem, que queira saber um pouco mais sobre os pensamentos de uma pessoa normal e cheia de uma vida normal. Todos nós temos histórias pra contar e para revelar.

Todos nós somos pequenas enciclopédias andantes e cheios de curiosidades para os mais curiosos e astutos que se preocupam com o verdadeiro sentido da vida.

Mafra

São oito e pouco da noite.

Olhei para o relógio e fiquei preocupado. A minha mulher não está em casa? Que coisa estranha! Não me parece nada normal. Não sei se fico preocupado, chateado ou desconfiado com este atraso. Olho para o relógio mais uma vez e os minutos parecem passar com alguma rapidez. À medida que o tempo passa, a minha boa disposição começa a deteriorar-se. Ando de um lado para o outro e pergunto ao mais pequeno:

– O que se passa com a mãe? Ela disse alguma coisa sobre o jantar?

Não o quis assustar com os meus nervos e a minha fúria a começar a rebentar e estoirar. Afinal de contas era apenas um atraso de alguém que não costuma atrasar-se e, nas poucas vezes que isso aconteceu, dava sempre uma apitadela para nos deixar descansados.

– Ela não disse nada sobre o jantar, mas nós podemos fazer. Não achas que poderíamos fazer qualquer coisa os dois?

Respondeu-me desta forma simples e de mentalidade aberta e ingénua, com a vontade e o desejo de eu não ficar maldisposto e me ver bem. Qualquer filho gosta de ver os seus pais bem e este não foge à regra.

Os outros dois, o Alexandre e o Guilherme, fruto da cumplicidade que partilham pelo facto de serem gémeos e pelo sentido de responsabilidade e leitura da vida que já possuem aos 20 anos de idade, fazem-se despercebidos e fora deste filme que eu estava a criar.

Algo me diz que as coisas não estão a bater certo. Se há algum problema na minha pessoa, dos muitos que poderei revelar, é assumir a minha negatividade. Mas isso já irei explicar.

Olho mais uma vez para o relógio.

Estarei a fazer um filme ou existe alguma coisa que eu deva saber e não sei? São estas as dúvidas que me surgem sempre que não estou seguro e devidamente preparado para as situações estranhas que me ocorrem na vida. Afinal de contas, a minha negatividade deve-se ao facto de ter sido preparado, enquanto militar, a encarar todas as missões com o maior número de modalidades de ação para atingir o objetivo. Por esta razão me designo de negativo, pois em qualquer que seja a decisão a tomar na minha vida, imagino sempre as possíveis modalidades para que a decisão seja a mais acertada possível. E acreditam, mesmo assim, muitas das decisões tomadas não foram as mais corretas?

– Pai, estás a pensar em quê? O mais pequenino, o Henrique, ficou a olhar para mim e constatou que a minha cabeça já está a vaguear por caminhos obscuros de pensamento.

– Estava a pensar o que poderemos fazer para o jantar.

Foi a resposta mais à mão que tinha e que lhe transmiti de imediato. Ele já estava a ficar preocupado com aminha cara a transformar-se em qualquer coisa que não lhe estava a agradar aos seus olhos. Mas o que poderei eu fazer numa situação destas? Fazer teatro? Assumir um papel que não é o meu? Fingir que estou bem quando não estou?

Eram oito e quarenta e cinco quando ouvi a chave na porta.

 

Lisboa, a partida

Esta é a grande aventura da minha vida.

Acabei de casar há uns meses e já estou metido num avião da TAP em direção a Angola. Parto para um destino desconhecido, um local de histórias macabras aprendidas em livros e reportagens da televisão.

O que estou aqui a fazer?

Agora não posso dar parte fraca. Apetece-me chorar de tantas saudades e dor na partida. Para trás deixei a mulher que amo, com quem casei e com quem desejo construir uma família. À minha frente está a minha profissão, a minha rebeldia e a minha vontade de mostrar a toda a gente de que sou capaz!

Não sabia o que ia fazer, nem tão pouco o que nos esperava.

Estes são momentos que identifico pertencentes a super-homens. Estou longe de ser um deles, nem nunca tive essa ambição, mas reconheço não ser fácil deixarmos uma vida estável e partirmos para algum lado de olhos tapados. Fora da caixa? Qual caixa qual quê! Deixem-se de pensar dessa forma e assumirem a pequenez de pensamento nestes momentos!

No braço levo a bandeira de Portugal e a da Organização das Nações Unidas (ONU). Estou integrado na companhia logística nº6 da UNAVEM e sou o comandante do pelotão de Combustíveis e lubrificantes. Tenho fé e esperança de que esta é apenas uma nomeação no papel para as minhas funções e justificação de nomeação para um cargo diferente no estrangeiro.

Talvez seja um bom começo de vida. Vou ganhar mais uns trocos e dar já de imediato um respirar e uma lufada de ar fresco na minha vida. Olho para o lado e sinto aquele silêncio…

Estamos todos sem palavras e as duas primeiras horas já se passaram. Nem vontade de ir á casa de banho deu a quem quer que fosse. Estamos fardados, aprumados e convictos de que tudo iremos fazer para regressar bem a casa depois da missão que nos espera. Não o posso afirmar porque não vi, mas tenho quase toda a certeza de que estas duas primeiras horas de viagem serviram para fazermos o luto da vida que deixámos para trás. É duro, muito duro! Mais ou menos capazes de aguentarmos a dor, as lágrimas não se contiveram por muito tempo dentro de cada um de nós. Eram os pais, os irmãos, as mulheres, os filhos, as namoradas, os amigos. Enfim, todos nós deixámos para trás os nossos e estamos prontos para aceitar cada um destes militares da missão como nosso irmão.

Angola, a chegada