Adeus amigo “Zé dos Correios”

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Chegar à velhice na nossa geração, torna-se a maior aventura de todos os tempos. As metas e objetivos que traçamos para a nossa vida, o desgaste da rotina do dia-a-dia, as preocupações em vivermos neste mundo onde tudo passa depressa e sem tempo para se olhar para trás, diria mesmo que estamos a atravessar uma das piores fases da nossa existência. Não descobrimos o fogo, nem o ferro, nem a luz, mas descobrimos milhões de coisas com uma dimensão tão grande que nos esquecemos do essencial da vida: Viver! Há duas semanas atrás recebi a notícia de um lar de

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Acabei de ter conhecimento desta notícia triste. Partiu a caminho das estrelas o meu amigo e ex-treinador de Andebol José Carlos Gonçalves, conhecido há muitos anos atrás pelo “Zé dos Correios”.

Não tenho palavras para esta partida e fico com a sensação de que partiu sem me ter despedido dele da forma como lhe prometi e combinámos. Gostaríamos de ter estado juntos a recordar os bons momentos e os tempos que passámos.

O “Zé dos Correios” foi o meu primeiro treinador de Andebol em Mafra e são muitas as peripécias que passámos juntos. Certamente não me levarás a mal recordá-las aqui para a posteridade. Sei que não irei descrevê-las todas, mas as mais significativas, ou as que mais me tocaram, ficarão aqui para mais tarde recordar.

  1. Foste o responsável pela implementação do Andebol jovem em Mafra. Já havia Andebol na nossa terra, mas tu, com a visão além do presente, conseguiste reunir em torno de ti um projeto de Andebol para o futuro. Inicialmente no CD de Mafra mas depois, devido às poucas condições que o Clube nos proporcionava, inventaste uma solução. Criaste o Clube Académico de Mafra da Casa do Povo. A cor dos equipamentos eram azuis e tínhamos o apoio do Restaurante Faisão do Gradil. Foi neste Clube que demos a mão a muitos atletas e foi graças a ti que o meu irmão, Carlos Galambas, ficou conhecido e transferido para o Belenenses. Ele jamais se poderá esquecer que os primeiros passos foram dados nesse clube que fundaste e que posteriormente se iria tornar num dos melhores Andebolistas de sempre na sua posição.

2. Não posso esquecer também uma tarde em que tudo correu mal. A caminho de um jogo de Andebol, deslocavas-te no teu Renault 5 e no carro transportavas a minha namorada. Tiveram um acidente de viação na Avessada e a Ofélia viria a sofrer algumas lesões que ainda hoje as possui. Nesse dia não marcaste presença no jogo e todos estávamos aflitos sem saber o que te tinha acontecido. Só quando chegámos a Mafra soubemos do ocorrido. Foi um dia triste que marcou a nossa infância.

3. Tinhas das tuas…. Um dia em Runa, num torneio particular, estávamos em pleno jogo, quando uma decisão da arbitragem não foi do teu agrado. A partir daí o caldo entornou-se! Tinhas emprestado os apitos no início do torneio às pessoas que gentilmente tinham aceite fazerem o papel difícil de árbitro. Não é que tudo isso se alterou de forma drástica? Claro que sim! Os árbitros resolveram expulsar-te de jogo e tu, como não aceitaste a decisão da arbitragem, regressaste atrás e foste-lhes pedir os apitos. Conclusão da história: o Jogo terminou ali mesmo porque não haviam apitos para arbitrar.

4. O Clube Académico de Mafra não possuía muito dinheiro, como é normal em quase todos os Clubes. Para fazermos face a despesas de inscrições, arbitragem e transporte dos atletas para os jogos, recorríamos a um determinado número de atividades para fazer face às mesmas. Uma das atividades que fizemos foi a realização de um teatro, pela altura da Páscoa: “Jesus Cristo Superstar”. Apenas me recordo do êxito de bilheteira desta atividade. Tínhamos conseguido atingir os nossos objetivos financeiros! Mas agora é que vão ser elas. A estrutura do palco teve que ser desmontada e alguns dos ferros da estrutura ficaram na varanda da casa do “zé” durante algumas semanas. A organização tinha-se comprometido a vir buscá-los logo após o evento, mas possivelmente tinham-se esquecido. Um dia, na visita quase regular a casa do Zé, voltei-me para ele e perguntei-lhe o que era feito dos ferros que estavam na varanda. Ele respondeu-me a gaguejar: -Vendi-os! Logo por azar, no dia seguinte apareceram na casa dele os senhores do teatro. Imaginem a barraca que não foi!

5. Sábado à tarde é dia de jogo em casa. Jogávamos no pavilhão do ciclo às 16 horas. Tínhamos que estar no pavilhão às 15 horas. Já não me recordo da equipa adversária, mas lembro-me bem do dia anterior, após o último treino. Quando nos reuniu para coordenarmos a hora de chegada no dia seguinte disse: -Ninguém vai chegar atrasado. Todos aqui às 15 horas! Quem chegar atrasado não joga! 

Uns minutos mais tarde volta a falar, agora com a voz mais embargada: Amanhã todos aqui às 15 horas e não se preocupem comigo. Eu vou chegar um pouco mais tarde, lá pelas 16. Mas estarei aqui à hora do jogo. Foi então que um de nós, preocupado lhe perguntou: Zé aconteceu alguma coisa?

Ele respondeu prontamente: amanhã dá na Televisão o Robin dos Bosques e só termina perto das 16horas. Como eu nunca vi, não posso perder o filme amanhã.

6. Para terminar, a melhor história de todas. Estamos em Vila Franca de Xira no torneio Xira Cup. Era um torneio de referência e nós adorávamos estar presentes. Num desses jogos, estávamos a jogar contra um clube cujas movimentações ofensivas eram preparadas pelo seu treinador através de um grito para o interior do campo: Jogada 1, 2, 3, etc!

Nós não tínhamos qualquer tipo de movimentação estudada. Tudo saía ao sabor do vento. Umas vezes bem, outras vezes mal. Diga-se de passagem que eram mais as vezes mal. Até que, de um momento para o outro,  ouvimos do banco, pela voz do nosso treinador Zé, N(éne) O (ó). Olhámos para o banco e nada! Não percebemos a sua mensagem, nem tão pouco  alguma vez na vida tínhamos escutado tal movimentação ou grito de guerra. Questionámos várias vezes durante o decorrer do ataque sobre aquelas palavras, mas ele respondia-nos sempre com o mesmo som: – N! O!

Imaginem isto durante todos os ataques da primeira parte, logo após os primeiros cinco minutos. O Jogo foi para intervalo e a primeira pergunta foi sobre o que nos queria transmitir que nós não tínhamos percebido nada. Afinal o que era N…O ?

Resposta do Zé: – No Osso!

 

Esta foi a maneira mais bonita de recordar para sempre meu querido amigo. A última vez que falámos foi ao telefone e ficou combinado juntarmo-nos. Não aconteceu! Ficarás sempre na minha memória pela amizade que depositaste em mim, na Ofélia, no meu irmão e na minha família. Leva contigo toda a minha amizade e a minha sinceridade para contigo. Foste importante na minha educação, fiz-me homem contigo e fui muito feliz perto de ti e dos teus. Jamais te esquecerei.

Ninguém me delegou essa responsabilidade, mas em nome de todos os teus ex-atletas e amigos que partilharam todos estes bons momentos desejamos-te que descanses em paz. 

Adeus Amigo Zé!

Quando alguém te der um limão…

Faz uma limonada!

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